Motoristas do Consórcio Guaicurus se reúnem de madrugada para decidir greve na segunda-feira
Motoristas do Consórcio Guaicurus se reúnem na madrugada de quinta-feira (11) para decidir se vão entrar em greve. Mesmo com contrato bilionário, a empresa de transporte alega não ter dinheiro suficiente para pagar o salário dos trabalhadores, atrasado há cinco dias. Se for aprovada, a paralisação começa na segunda-feira (15).
O secretário-executivo do STTCU-CG (Sindicato dos Trabalhadores em Transporte Coletivo Urbano de Campo Grande), Santino Cândido, explica que a greve não deve começar nesta semana. “O rito é 72 horas”, afirma. A assembleia está marcada para às 4h30 de quinta-feira, ou seja, se os motoristas aderirem à paralisação, a greve começa só na próxima segunda-feira (15).
Sindicalistas e representantes da empresa reuniram-se na tarde da segunda-feira (8) para discutir o problema. Motoristas temem também o atraso no pagamento do 13° e do adiantamento salarial, marcado para 20 de dezembro. O presidente do STTCU-CG, Demétrio Freitas, diz que tem esperança de receber os valores devidos, mas a sinalização da empresa durante a reunião foi contrária.
‘Querem enrolar a gente’
Áudios obtidos pela reportagem, supostamente enviados em conversa entre representante jurídico do STTCU-CG e motorista, circulam em grupos de WhatsApp da categoria. Na conversa, o trabalhador se mostra descrente com as negociações entre o sindicato e o Consórcio Guaicurus.
Denúncia publicada pelo Jornal Midiamax revela que a paralisação de novembro deste ano teria sido resultado de um conluio entre o sindicato e os empresários que comandam a companhia. A intenção era pressionar o repasse de verba pública, impactando a rotina do campo-grandense. O Tribunal Regional do Trabalho chegou a abrir investigação para apurar a suposta prática de locaute contra o Consórcio.
“Eles querem enrolar a gente para trabalharmos de graça mais essa semana e, talvez, o pagamento cair na segunda-feira. Por que 48h e depois 72h? Isso é conversa. Já está combinado: ‘vamos enganar os trouxas até semana que vem’. Vai passar essa semana inteira, domingo e só na segunda-feira. Essa semana a gente não vai ter pagamento”, lamenta o trabalhador da empresa de ônibus em conversa nesta semana.
Em resposta, suposto representante do sindicato diz que os prazos são necessários para dar legalidade à greve. “Para paralisação de uma ou duas horas, a gente pode parar amanhã mesmo, sem problema nenhum. Mas, como não vamos parar só por horas, vamos fazer greve mesmo, ela precisa cumprir parâmetros legais”.
Segundo ele, a assembleia deve ser marcada em até 48 horas após a publicação do edital e, se aprovada, a greve pode começar após 72 horas. “São os meios legais para greve geral. Aí vai todo mundo para casa e não volta a trabalhar mais”. No entanto, o homem lembra que, como o transporte público é considerado serviço essencial, a Justiça pode ordenar o funcionamento de 30% do efetivo.
Motivo do atraso
O Consórcio Guaicurus já faturou mais de R$ 1,8 bilhão desde que assumiu o serviço, mas ainda há inúmeras e diárias reclamações sobre o serviço, como atrasos, condições precárias dos ônibus e superlotação.
Mesmo assim, a empresa atribui a incapacidade de honrar os compromissos trabalhistas à inadimplência de repasses devidos pelo Poder Público. Não à toa, a empresa recorre constantemente à Justiça para forçar o repasse de mais verba pública aos cofres privados do grupo. Além dos convênios com o Poder Público, o transporte coletivo ainda obtém receitas oriundas das tarifas dos usuários e de publicidade busdoor.
A empresa classifica a situação como crítica e solicita providências urgentes das autoridades competentes para a regularização dos débitos. Um pedido de intervenção no transporte público já foi apresentado à Prefeitura da Capital e mobiliza assinatura de populares para que seja designado um agente que possa avaliar a operação e, se possível, colocar o serviço em ordem após diversos indícios de ingerência, negligência e incompetência dos chefes do Consórcio.
O comunicado ainda destaca que a não regularização dos supostos débitos pode resultar na interrupção da prestação dos serviços, a exemplo do que ocorreu recentemente, quando motoristas teriam sido forçados a cruzar os braços por cerca de duas horas, no início da manhã do dia 22 de outubro, sob a justificativa de não pagamento do vale salarial.



