Conflito entre Israel e Palestina afeta centenas de sul-mato-grossenses

Após o bombardeio a Israel feito pelo grupo extremista islâmico Hamas, no sábado, centenas de brasileiros aguardam para sair da zona do conflito entre Israel e Palestina, que já se estende por mais de 55 anos, e retornar ao País. A situação na região tem afetado centenas de pessoas em Mato Grosso do Sul.

Entre elas está o sul-mato-grossense Ely Silveira, que está em Israel desde o começo do mês, quando foi visitar os tios na cidade de Ashkelon. Ele voltaria para o Brasil no sábado, porém, quando chegou ao aeroporto de Tel-Aviv, ocorreu o bombardeio na região.

“Eu ia voltar, estava vindo para o aeroporto quando fiquei sabendo dos ataques e eu estava em uma cidade que até agora está sendo atacada com mísseis”, contou o jornalista e advogado.

Essa é a terceira vez que Silveira vai a Israel. Segundo ele, apesar da tensão entre Palestina e Israel nunca ter cessado, em nenhuma das outras vezes houve sequer ameaça de bombardeios como os que ocorrem agora.

No aeroporto desde sábado, o jornalista e advogado está dormindo no chão, ao lado de diversas pessoas na mesma condição que ele: tentando um voo para deixar a região de conflito. A alimentação é por sua conta e a água é fornecida pelo aeroporto, mas tomar banho não tem sido possível.

Segundo o sul-mato-grossense, a companhia aérea em que ele havia adquirido a passagem chegou a prever um voo para amanhã, porém, cancelou logo depois. A esperança é de que ele consiga um vaga nos voos que estão previstos pela Força Aérea Brasileira (FAB).

“Estou bem, estou no aeroporto, que é um lugar seguro, mas não saio, esta vai ser a terceira noite que durmo aqui. O aeroporto está cheio, tem bastante gente dormindo aqui. Não tem previsão [de voltar], fiquei sabendo pela imprensa que vai sair um avião da FAB na madrugada de terça para quarta, mas não fomos informados pela embaixada sobre nada. Pela companhia aérea, tinham disponibilizado para mim um voo quarta-feira à noite, mas foi cancelado”, relatou.

Durante os dias que está no aeroporto, o sul-mato-grossense conta que a sirene que alerta para ataques aéreos tocou em três oportunidades e que já ouviu os bombardeios, mas que o momento de maior tensão no aeroporto foi um mal-entendido.

“No sábado de manhã, a sirene tocou duas vezes e fomos direcionados para o bunker. E no sábado à noite de novo. No sábado à noite, a gente ouviu duas explosões, não foram tão próximas, foram em outra cidade. Ontem [domingo] foi tranquilo, mas hoje [segunda-feira] eram 12h e tocou de novo a sirene. Hoje estou um pouco assustado porque teve um início de pânico, foi um mal-entendido, alguém ouviu uma coisa errada, se assustou e correu, outras pessoas viram e correram também e outras pessoas começaram a gritar, mas foi só um mal-entendido”, declarou.

Outro relato é do filho do professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) Leandro Sauer, que estava na Palestina para apresentar seu trabalho de iniciação científica. Luca Montenegro Sauer, de 20 anos, cursa História na Universidade Federal Fluminense (UFF) e estava em Ramallah quando estourou o conflito.

“Em Ramallah estava tranquilo no sábado. O único problema é que, para ele voltar para Tel-Aviv, de onde sai o voo dele na quarta-feira à noite, ele tem de passar pelos checkpoints, e todos eles estavam trancados. Ele tentou entrar em contato com a embaixada no sábado, preencheu o formulário para se colocar na lista para voltar pelo voo da FAB, mas até o momento não teve retorno do Itamaraty”, comentou o pai de Luca.

Nesta segunda-feira, Luca conseguiu sair de Ramallah, acompanhado de uma amiga mexicana. O estudante teria ido novamente à Embaixada do Brasil, que estava fechada, mas acabou conseguindo uma carona com a Embaixada do México, que estava com um grupo saindo da cidade da Cisjordânia para Jerusalém.

De Jerusalém, Luca foi para Tel-Aviv, onde vai tentar embarcar para o Brasil por voo comercial, que já estava marcado, ou pelos voos oferecidos pela FAB, por meio da Missão Israel Palestina.

“A gente está apreensivo, mas está esperançoso, tanto em Ramallah quanto em Tel-Aviv está tranquilo, a Faixa de Gaza é lá no sul do Estado da Palestina, e a gente tem conversado com ele pelo
WhatsApp”, comenta Leandro Sauer.

A FAB tem em sua programação cinco voos para resgatar brasileiros em Israel. A primeira aeronave, KC-30, que tem capacidade para até 230 passageiros, já está em Roma, de onde partirá para Tel-Aviv para trazer os primeiros brasileiros de volta ao País.

A FAB informou que o embarque de Israel deve ocorrer às 14h de hoje (horário de Brasília), e a chegada dos brasileiros está programada para a 1h de quarta-feira, em Brasília.

PALESTINOS

Em Campo Grande, o médico e ex-vereador da Capital Jamal Salem está aflito pelos familiares que estão na região do Estado da Palestina. Ele tem primos e uma sobrinha que moram em Bitin, que pertence
o município de Ramallah.

Segundo ele, na região onde seus familiares estão não está havendo bombardeios, porém, o temor é porque as fronteiras estão fechadas e os cidadãos não estão podendo sair do país. “Com certeza, logo eles terão problemas por falta de alimentos, com a economia. Apesar de não estarem em zona de guerra, vão ser afetados”, comentou.

“A gente reclama do Brasil às vezes, mas isso aqui é um paraíso. Temos vários outros problemas, mas mesmo assim não deixa de ser um paraíso comparado a essas regiões”, completou Salem.
A mesma preocupação de Salem é a de Omar Faris: os irmãos do comerciante palestino de 71 anos também vão tentar o retorno pela FAB. No entanto, a situação da família de Faris é ainda mais agravante, pois eles estão em um local da Cisjordânia em que não conseguem sair, em virtude dos checkpoints feitos por militares israelenses estarem fechados.

A família vai para a Cisjordânia todo ano, e Faris esteve lá de julho a setembro, quando voltou a Mato Grosso do Sul e seus irmãos foram ao país.
“Em cidades, municípios e vilarejos, todas as entradas para esses lugares são bloqueadas, ninguém sai, ninguém entra. Quer dizer, se antes do conflito você está lá e eu aqui, é só atravessar e chegar até mim. Agora com essas barreiras que eles [israelenses] colocaram, não tem como um chegar ao outro”, informou.

CONFLITO

Sobre o conflito, Salem salientou que ficou ainda mais acirrado após Israel não reconhecer orientação da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a criação do Estado da Palestina.

Em abril de 1947, um comitê especial das Nações Unidas propôs a partilha da Palestina em dois estados: um judeu (já com 650 mil habitantes) e um árabe-palestino (com o dobro da população). Líderes judeus aceitaram a proposta, mas o lado árabe foi contra, o que resultou na Guerra Árabe-Israelense de 1948 após
a proclamação do Estado de Israel pelos judeus.

Desde então, a região é tomada por conflitos, que resultam inclusive na migração da população palestina. De acordo com o Ministério da Saúde Palestino, pelo menos 687 palestinos morreram e 3.726 pessoas ficaram feridas após os ataques aéreos de Israel à Gaza. Já o ataque do Hamas a Israel no fim de semana resultou em 700 óbitos.

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